A criança precisa ser investida de amor. Precisa de atenção, que olhemos para ela, falemos com ela, saibamos compartilhar, rir, dar colo. No entanto, o amor à criança é diferente do amor a um adulto: ele deve ser incondicional, embora saiba dizer à criança o que machuca e o que causa dor. O amor à criança deve ajudá-la a ir para longe de nós, e este é o paradoxo do amor que a mãe enfrenta, pouco a pouco, à medida que avança o crescimento do bebê. Ela deve prepará-lo para outros amores. A mãe chama a criança para si para depois deixá-la ir.
Por isso, a maternidade e a paternidade são as formas de amor mais desafiadoras, que nos faz ir além de nós mesmos. Ao ver a dor de algumas mães que vêem seus filhos dando "tchau" e seguindo para ir à escola, o que também é difícil para elas, vejo como pode ser difícil deixar ir. Sentimentos de insegurança, nesse momento, são completamente compreensíveis: nós não controlamos tudo o que pode acontecer com esse pequeno "pedacinho de gente" que se descola e vira alguém. Alguém que deve ser diferente de nós, que sabe dizer "não", que corre quando queremos que fique bem quietinho ao nosso lado.
Mas, quando a criança pode "desobedecer" àqueles que insistem em que ela continue dependente, e deixamos que ela vá, ao mesmo tempo que ainda nos colocamos à disposição delas, tudo fica bem, e elas podem voltar. A criança volta, cheia de novidades, de diferenças conquistadas, e querem ser reconhecidas (Como um menino que vai à praia e traz uma pequena concha para a mãe:"Que bela coisa você encontrou!")
Se as prendemos, invadindo sua vida, querendo estar perto demais, ou se nos afastamos, com medo e inseguros, não ensinamos a compartilhar e perdemos a oportunidade de ver a criança se tornar alguém (diferente de nós). A criança não cresce, e se volta contra o mundo que não permitiu que ela fizesse parte dele, e que a engoliu como um mostro de dentes enormes. Presa dentro de uma baleia, como em Moby Dick, ou dentro da casa da bruxa em João em Maria (por fora cheia de doces, por dentro, prisão e medo), a criança não consegue nascer.
Por isso, nunca é demais refletirmos e cuidarmos de nosso amor às crianças, para que possamos aprender com elas a melhor e mais incrível forma de amor. Aquela que sabe estar ali, para que ela possa ir e voltar, se precisar.
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