terça-feira, 27 de setembro de 2011

GNT: MELHOR AMIGO

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Toda criança tem pai. Toda criança precisa de um pai.

 "Toda criança precisa de um pai” é uma frase que frequentemente se ouve, mas há algum fundamento científico que a sustente? Neste documentário, a psicóloga infantil Laverne Antrobus faz uma busca para descobrir por que a relação do pai com seus filhos é tão importante. Ela revela descobertas de pesquisas recentes sobre a ciência da paternidade." 
Colocando a palavra "descobertas" a parte, tomo a licença de substituí-la por "perspectivas", e sigo  linha indicando o vídeo. Este é um documentário interessante , que traz situações também interessantes.  Podemos discutir algumas coisinhas a partir dele, porque toca na questão da "função paterna", tão falada e pouco sustentada hoje em dia.
É consenso entre muitos especialistas que, em nossa cultura, falta pai. Mas do que se trata a "falta da função paterna"?
Ao contrário do que se possa pensar, esses especialistas não partem de fundamentações teóricas, sem vinculação ou vivência prática. Nem todos são assim, e muitos terapeutas e educadores concordam que, a mudança de paradigma contemporâneo, antes estatal e hoje neoliberal, a entrada na mulher no mercado de trabalho (vale dizer, de modo e segundo padrões machistas e masculinos) tornou a voz do pai, sua legitimação, algo extremamente difícil de sustentar. Tanto para o seu representante, qual seja, a figura do pai, quanto para a escola: se antes o olhar paterno já remetia à repressão e ao enquadramento, e se a escola conseguia disciplinar seus alunos, hoje não é mais assim. E ainda bem! No entanto, as coisas podem não estar "liberais" como gostaríamos no sentido da liberdade de pensar, agir, sentir, ser, mas podem estar ainda mais difíceis. Porque, primeiro, que não é verdade que não temos mais repressão; ela está aí, apenas mais escamoteada e mais sedutora que autoritária. Segundo, que a função paterna acabou saindo de um lugar de "castigo" para um lugar de permissividade, abandono , negligência, ausência de contorno. Os pais não sabem, e nem nós sabemos, que lugar eles estão indo, e em muitos casos, eles estão escorregando para um não-lugar: na visão da mulher, ou o pai deve ser "uma mãe", ou ele não é necessário, muito menos desejável. Por outro lado, vemos pais que fazem tudo para não frustrar seus filhos e suas esposas, e o "não" dito em tom alto e agressivo, deu lugar a um "sim", sedutor e subserviente. 
Assim como o nosso sistema sócio-econômico, ser "pai" virou um programa de fim de semana, alguém que se compra em um "banco de pais" ou atestado de "banana". 
Dessa maneira, nossa questão contemporânea é: qual será, como será, daqui pra frente, a função paterna? Retornar aos tempos do "vovô", lendo jornal e comendo primeiro que todo mundo na mesa, não dá mais. Hoje quem come primeiro, durante e depois é a criança. E qual a consequência disso??
Bom, do ponto de vista de quem lida com várias crianças, de diferentes classes sociais e em diferentes situações, tanto na escola como na clínica, é a mesma: crianças extremamente inseguras, mandonas, hiperativas e hiperestimuladas, intolerantes à qualquer frustração,  sem ninguém que as ajude a entrar em contato com a vida e suas limitações, ninguém que medie o contato direto e invasivo das imagens apaixonantes do consumo.
A instituição familiar está mudando, mas temos que aproveitar isso como uma oportunidade de virar o jogo, de recriar nossos caminhos, e não de repetir erros do passado ou procurar acertar demais, impedindo a nós mesmos de vivermos outras histórias.
Neste vídeo que postei aqui, existem, na minha visão, parcial e insuficiente, certas afirmações biologizantes e determinantes, (talvez até preconceituosas) sobre as funções materna e paterna. Mas, por outro lado, achei ele ótimo para pensar como é possível uma função paterna que seja mais reguladora, mais vivida a partir da interação e da diferença inegável entre aqueles que cuidam das crianças, e que com certeza geram nelas modos de relações diferentes.
Talvez possamos pensar na função materna e paterna como duas formas de ludicidade, dois estilos que são sentidos como complementares pela criança: o limite e o acolhimento, o desejo e a frustração, que estão presentes em ambas as figuras. Pensando nas crianças e no que elas dizem, não podemos nos enganar: a criança procurará, sim, representantes: não se trata de funções que podem ser seguidas inteiramente por um ou por outro. O que quero dizer é que toda criança procura um pai, toda criança precisa de um pai, um representante, nem que esse pai seja um amigo da mãe, um pai adotivo, um namorado, uma pessoa que já faleceu ou uma pessoa que não quis conhecê-lo. Toda pessoa procura ( e tem direito) à sua história, para poder transformá-la, reconstruí-la a sua maneira. E,ao contá-la, jamais devemos esquecer de respeitar a criança: se não gostamos do pai dela, isso é problema nosso. Pai é pai, é origem, é parte de um quebra-cabeça que está sempre para ser montado. A mãe que não respeita o pai do seu filho enquanto tal, está falando mal do pai dos outros, e criará um filho com a função paterna desqualificada.Frequentemente, essa criança, para surpresa de muitas, voltam-se contra elas e tornam-se pessoas sem limites. 
Ao amadurecer, a criança tomará pé de sua história, criando-a à sua maneira; irá em busca de  verdades e mentiras, e vai viver a vida a seu modo. Ela saberá o pai que tem, assim como saberá que pode transformar o mundo, as relações, porque não teme ou foge da realidade da vida.
E toda criança tem pai. Seja lá como ele é, qual fim ou começo que teve, todos nós construímos nossa confiança em nós mesmos pela certeza de que quem nos ajudou a colocar no mundo ( e isso é ainda necessário!!) existiu, para, enfim, ser ultrapassado. Porque uma função que os pais possuem e que são muito positivas às crianças, é quando esse pai se deixa ultrapassar, permite ser odiado ou deixado de lado por alguns momentos do desenvolvimento da criança, sem, portanto, perder sua intensa e capacidade de amar ensinando e ajudando a ir além do que ele mesmo foi. Ajudando a encarar o mundo lá fora, tentando achar meios de acompanhar, estar com, dizer "não"e "sim" na medida da relação, do dia-a-dia, porque paternidade certamente não é nem entretenimento, nem castigo, nem fonte de sermão. O que podemos dizer é que, antes de tudo, é responsablidade.


Os pais e as famílias de hoje possuem a deliciosa tarefa de descobrir, no dia-a-dia com seus filhos, formas transformadoras de exercer essa função em construção. Que essas novos modos de ser possam desconstruir essa idéia de "perfeição", (que todo o pai perfeito é aquele que tudo dá e provê), idéia de que tem jeito certo de ser pai, ou qualquer outra coisa. Ser pai só se é sendo, cada um a seu modo. Se não tem quem exerça a função durante a vida ou algum momento, os pequenos acham: alguém precisará aceitar o desafio, que não pode ter desistência ou ser "modalidade de ensino à distância". No entanto, que não esqueçam de que a corda sempre arrebenta do lado mais fraco, e que a criança "tirana", "esperta" e "cheias de vontades próprias e sem respeito ao outro", é o modelo mais fácil de se comprar na loja do mundo. Sejamos mais criativos!