Essa reportagem esclarece algumas questões para pessoas que estejam procurando informações sobre "doenças de aprendizagem". Pesquisadores de todo o mundo procuram discutir os efeitos da banalização diagnóstica e da administração de drogas em crianças e adolescentes.
Estamos vivendo uma época de negligência dos fatores subjetivos e ambientais presentes na manifestação de sofrimento da criança (e das pessoas em geral) e um aumento absurdo de comportamentos compulsivos para evitar qualquer angústia ou dor. Evitamos ver nossos problemas, nossa responsabilidade perante a nossa própria vida e à vida dos outros, a repensar nossas relações. "Ouvir a criança" não significa, como muitos podem pensar, oferecer o que ela quer e deixar de dar limites; ao contrário, é considerar a criança enquanto um sujeito que possui conflitos e dores, e que seu comportamento ainda é muito dependente de todas as relações que a cercam na busca de amor, organização, coerência e delimitação.
Dr. Karp escreveu um livro ( e fez um vídeo) chamado "A criança mais feliz do pedaço" (ou "the happiest toddler on the block"). Nesse material, encontramos uma interessante questão: a diferença de linguagem entre a criança e o adulto. Enquanto a criança possui uma espécie de "pré-linguagem", prioritariamente afetiva e impulsiva, o adulto pensa por significados, paixões e jogos de palavras de sentidos variados. O que Karp faz é apenas revelar como a criança reage quando não se sente compreendida: ela grita, chora, faz "pirraça", e sem a atenção da criança ficamos falando no vazio. A criança precisa que nós mostremos a ela que sabemos o que se passa, e que sabemos exatamente o que fazer : está tudo sobre controle! Com calma, afirmamos o desejo da criança, e só depois direcionamos o seu comportamento, sem ansiedade ou raiva.
Vale conferir os textos e os vídeos de Harvey Karp, e partirmos para algumas discussões.
O cineasta do filme "Babies" capta momentos únicos e, ao mesmo tempo, tão cotidianos do desenvolvimento dos bebês no mundo todo. Nós percebemos a relação íntima e complexa entre a tendência inata a buscar o objeto, a cultura e as primeiras relações que conferem ao bebê um "meio" socio-afetivo favorável para que ele desvele sentido e invente tudo o que está a sua volta. Observamos como esse "meio" é caracterizado por uma vigilância tranqüila e uma atenção prazerosa e não ansiosa, uma interferência na medida certa, sem tolir, invadir ou superproteger a criança. O bebê, dessa maneira, tem liberdade para fazer suas experimentações na medida em que já pode fazê-las, sendo protegido apenas quando aquilo excede sua capacidade de lidar com a situação: a mãe interfere rapidamente, desviando-o do objeto ou mudando rapidamente a situação, deixando o bebê novamente com a tarefa de se resolver. O bebê sente-se seguro, mas faz suas investidas e encontra problemas, interrogações que apenas podem ser resolvidas através do esforço de "ir até o objeto". A relação com o bebê é viva e, por isso, não isenta sua vida dos perigos que nos rodam - embora em uma escala proporcional à sua percepção.
As perguntas freqüentes: "como dar limite ao bebê?", "até onde impedir a ação de um bebê", "até onde satisfazer o bebê" estão completamente ligadas à idade da criança e seus marcos de desenvolvimento que já permitem que elas lidem com certos problemas.
A superproteção, a ansiedade, o medo de frustrar a criança impedem que ela se desenvolva, tornando-a insegura, por demais dependente, irritadiça ou caprichosa. Quando essa proteção exagerada se liga à falta de qualidade da presença materna e ambiental, quando falta o apoio paterno à díade mãe-criança, a criança pode se desenvolver mais lentamente ou mais aceleradamente que o esperado. Esse "descompasso" sempre exigirá reparação, e a criança tentará buscar de forma não adequada aquilo que não foi oferecido a ela.
Aos pais que virem esse vídeo, desejo que agucem sua sensibilidade e a capacidade de reflexão que deve caracterizar sua atuação com as crianças pequenas. A criança é imatura; apesar de algo óbvio, isso tem sido raramente considerado. Espera-se mais da criança do que oferecemos a ela em termos de segurança, intervenção dosada, frustração dosada (sim, a criança precisa se frustrar!) e amor calmo e amadurecido. Nós somos os adultos, temos medos e ansiedades, mas muitos recursos para lidar com isso e tentar de outras maneiras. Não esqueçamos da responsabilidade de lidar com nossas próprias dores sem interferir no desenvolvimento desses pequenos iniciantes: se não fomos bem cuidados, vamos nos esforçar para dar o melhor de nós. E o melhor de nós certamente não é nossa carência, nossa preocupação excessiva ou negligência, nossa "paixão"sexual que faz com que algumas pessoas coloquem suas fixações nos filhos que, ainda, não podem se defender. Já está na hora de nós, adultos, crescermos, para deixarmos que os bebês sejam crianças, experimentem e resolvam seus problemas e suas angústias da forma infantil que as caracterizam. Ninguém disse que era fácil e, se disse, quis dar uma de sabichão. Cheio de desafios, o dia-a-dia com uma criança, ainda mais um filho, exige uma capacidade de amar mais ao outro do que a si mesmo. Exige ir além do que nunca se foi em termos de capacidade de amor. E isso é uma tarefa de adultos, concordam?
Às crianças, cabe ser criança. A nós, cabe apenas saber estar junto delas, nem mais, nem menos.
Um filme recomendável que, através de um olhar sensível, com imagens belíssimas nos transportam para o bebê e seu mundo de sons, silêncios e descobertas.