terça-feira, 20 de março de 2012

Acalmando bebês chorando


Shantala


quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

O nascimento como um ato humano: discussões sobre vantagens e desvantagens do parto normal e da cesariana


Antes que alguém venha falar sobre a importância da cesariana para salvar vidas, tanto de bebês quanto de suas mães, esse filme esclarece que, isso, ninguém nega. O que na verdade é questionado, é como uma situação emocional tão intensa como essa, na nossa cultura, acontece de forma tão pouco humana. Além do mais, muitos parecem desconhecer a importância dos atos fisiológicos do ponto de vista relacional: isso também pode causar doenças. O aumento absurdo do índices de doenças mentais e do desenvolvimento em bebês e crianças pequenas deveria nos levar a questionar a maneira que construímos a chegada de pessoas que reivindicarão sua história, o amor e dedicação que deveríamos ter por elas e a educação, nem sempre priorizada. A produção em série, conosco, não tem dado muito certo. Acho que podemos concordar que o nascimento, como lidamos hoje em dia, tem levado em consideração uma noção de "vida" que não inclui as emoções (às vezes nem a voz), nem da mãe, nem do bebê.


sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Toda criança tem pai. Toda criança precisa de um pai.

 "Toda criança precisa de um pai” é uma frase que frequentemente se ouve, mas há algum fundamento científico que a sustente? Neste documentário, a psicóloga infantil Laverne Antrobus faz uma busca para descobrir por que a relação do pai com seus filhos é tão importante. Ela revela descobertas de pesquisas recentes sobre a ciência da paternidade." 
Colocando a palavra "descobertas" a parte, tomo a licença de substituí-la por "perspectivas", e sigo  linha indicando o vídeo. Este é um documentário interessante , que traz situações também interessantes.  Podemos discutir algumas coisinhas a partir dele, porque toca na questão da "função paterna", tão falada e pouco sustentada hoje em dia.
É consenso entre muitos especialistas que, em nossa cultura, falta pai. Mas do que se trata a "falta da função paterna"?
Ao contrário do que se possa pensar, esses especialistas não partem de fundamentações teóricas, sem vinculação ou vivência prática. Nem todos são assim, e muitos terapeutas e educadores concordam que, a mudança de paradigma contemporâneo, antes estatal e hoje neoliberal, a entrada na mulher no mercado de trabalho (vale dizer, de modo e segundo padrões machistas e masculinos) tornou a voz do pai, sua legitimação, algo extremamente difícil de sustentar. Tanto para o seu representante, qual seja, a figura do pai, quanto para a escola: se antes o olhar paterno já remetia à repressão e ao enquadramento, e se a escola conseguia disciplinar seus alunos, hoje não é mais assim. E ainda bem! No entanto, as coisas podem não estar "liberais" como gostaríamos no sentido da liberdade de pensar, agir, sentir, ser, mas podem estar ainda mais difíceis. Porque, primeiro, que não é verdade que não temos mais repressão; ela está aí, apenas mais escamoteada e mais sedutora que autoritária. Segundo, que a função paterna acabou saindo de um lugar de "castigo" para um lugar de permissividade, abandono , negligência, ausência de contorno. Os pais não sabem, e nem nós sabemos, que lugar eles estão indo, e em muitos casos, eles estão escorregando para um não-lugar: na visão da mulher, ou o pai deve ser "uma mãe", ou ele não é necessário, muito menos desejável. Por outro lado, vemos pais que fazem tudo para não frustrar seus filhos e suas esposas, e o "não" dito em tom alto e agressivo, deu lugar a um "sim", sedutor e subserviente. 
Assim como o nosso sistema sócio-econômico, ser "pai" virou um programa de fim de semana, alguém que se compra em um "banco de pais" ou atestado de "banana". 
Dessa maneira, nossa questão contemporânea é: qual será, como será, daqui pra frente, a função paterna? Retornar aos tempos do "vovô", lendo jornal e comendo primeiro que todo mundo na mesa, não dá mais. Hoje quem come primeiro, durante e depois é a criança. E qual a consequência disso??
Bom, do ponto de vista de quem lida com várias crianças, de diferentes classes sociais e em diferentes situações, tanto na escola como na clínica, é a mesma: crianças extremamente inseguras, mandonas, hiperativas e hiperestimuladas, intolerantes à qualquer frustração,  sem ninguém que as ajude a entrar em contato com a vida e suas limitações, ninguém que medie o contato direto e invasivo das imagens apaixonantes do consumo.
A instituição familiar está mudando, mas temos que aproveitar isso como uma oportunidade de virar o jogo, de recriar nossos caminhos, e não de repetir erros do passado ou procurar acertar demais, impedindo a nós mesmos de vivermos outras histórias.
Neste vídeo que postei aqui, existem, na minha visão, parcial e insuficiente, certas afirmações biologizantes e determinantes, (talvez até preconceituosas) sobre as funções materna e paterna. Mas, por outro lado, achei ele ótimo para pensar como é possível uma função paterna que seja mais reguladora, mais vivida a partir da interação e da diferença inegável entre aqueles que cuidam das crianças, e que com certeza geram nelas modos de relações diferentes.
Talvez possamos pensar na função materna e paterna como duas formas de ludicidade, dois estilos que são sentidos como complementares pela criança: o limite e o acolhimento, o desejo e a frustração, que estão presentes em ambas as figuras. Pensando nas crianças e no que elas dizem, não podemos nos enganar: a criança procurará, sim, representantes: não se trata de funções que podem ser seguidas inteiramente por um ou por outro. O que quero dizer é que toda criança procura um pai, toda criança precisa de um pai, um representante, nem que esse pai seja um amigo da mãe, um pai adotivo, um namorado, uma pessoa que já faleceu ou uma pessoa que não quis conhecê-lo. Toda pessoa procura ( e tem direito) à sua história, para poder transformá-la, reconstruí-la a sua maneira. E,ao contá-la, jamais devemos esquecer de respeitar a criança: se não gostamos do pai dela, isso é problema nosso. Pai é pai, é origem, é parte de um quebra-cabeça que está sempre para ser montado. A mãe que não respeita o pai do seu filho enquanto tal, está falando mal do pai dos outros, e criará um filho com a função paterna desqualificada.Frequentemente, essa criança, para surpresa de muitas, voltam-se contra elas e tornam-se pessoas sem limites. 
Ao amadurecer, a criança tomará pé de sua história, criando-a à sua maneira; irá em busca de  verdades e mentiras, e vai viver a vida a seu modo. Ela saberá o pai que tem, assim como saberá que pode transformar o mundo, as relações, porque não teme ou foge da realidade da vida.
E toda criança tem pai. Seja lá como ele é, qual fim ou começo que teve, todos nós construímos nossa confiança em nós mesmos pela certeza de que quem nos ajudou a colocar no mundo ( e isso é ainda necessário!!) existiu, para, enfim, ser ultrapassado. Porque uma função que os pais possuem e que são muito positivas às crianças, é quando esse pai se deixa ultrapassar, permite ser odiado ou deixado de lado por alguns momentos do desenvolvimento da criança, sem, portanto, perder sua intensa e capacidade de amar ensinando e ajudando a ir além do que ele mesmo foi. Ajudando a encarar o mundo lá fora, tentando achar meios de acompanhar, estar com, dizer "não"e "sim" na medida da relação, do dia-a-dia, porque paternidade certamente não é nem entretenimento, nem castigo, nem fonte de sermão. O que podemos dizer é que, antes de tudo, é responsablidade.


Os pais e as famílias de hoje possuem a deliciosa tarefa de descobrir, no dia-a-dia com seus filhos, formas transformadoras de exercer essa função em construção. Que essas novos modos de ser possam desconstruir essa idéia de "perfeição", (que todo o pai perfeito é aquele que tudo dá e provê), idéia de que tem jeito certo de ser pai, ou qualquer outra coisa. Ser pai só se é sendo, cada um a seu modo. Se não tem quem exerça a função durante a vida ou algum momento, os pequenos acham: alguém precisará aceitar o desafio, que não pode ter desistência ou ser "modalidade de ensino à distância". No entanto, que não esqueçam de que a corda sempre arrebenta do lado mais fraco, e que a criança "tirana", "esperta" e "cheias de vontades próprias e sem respeito ao outro", é o modelo mais fácil de se comprar na loja do mundo. Sejamos mais criativos!

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

domingo, 31 de julho de 2011

Por todas as "formiguinhas" de todos os tempos


A paixão e a criação do vínculos, os conflitos, a frustração e a perda dizem respeito a desafios da experiência de todos nós. A capacidade de preocupar-se, de sentir e respeitar a significância da vida é algo que aprendemos amando e sendo amados, desde o nascimento. Para Winnicott, essa capacidade é tratada a partir da palavra em inglês "concern", que guarda uma acepção paradoxal; pois tem o sentido ambíguo de "desvelo", "atenção"e ao mesmo tempo "cautela", "preocupação", "inquietação". "Concern" é o resultado de um desenvolvimento e não é algo dado, o que significa que nós aprendemos a amar e nossa sina é viver todas as vicissitudes desses amores, até o final de nossas vidas. Enquanto o sentimento de culpa diz respeito à moral, à capacidade de distinção e reconhecimento do certo/errado, o princípio de "concern" é o fundamento da ética por excelência. A capacidade de distinguir entre elementos vivos e não vivos e a acepção sagrada que o "ser" amado adquire para nós como um sentido único, nos torna hábeis para sentir que a vida, nossa e dos outros, vem de um elemento "comum" e precisa ser preservado. Nesse vídeo adorável vemos a dor de um meninho, dor que o acompanhará ainda muitas vezes, diante da destruição e da perda de algo vivo e, portanto, extremamente significante. Esse drama que é travado em diversas proporções na experiência de crianças e adultos, vai se transformando à medida que sentimos os impulsos da destruição e da agressividade, presentes em todos nós, e adquirimos o imperativo de recriar, ou "concertar" o mundo. Paradoxalmente, a destruição demonstra que nada pode ser construído da mesma maneira, o que nos gera a angústia da perda, perplexidade e, se temos êxito no desenvolvimento de sentir "concern", uma insistente esperança de que algo pode ser feito a respeito. 
O reconhecimento da perda irremediável, assim, pode ser pensada como um motor ainda maior para o sentimento de esperança e a mobilização da nossa criatividade.
No entanto, não podemos esquecer que, se a esperança advém da experiência, ou seja, se aprendemos amando e esperamos sempre amar, isso se dá graças ao fato de que, nossos primeiros e fundamentais amores, resistiram a toda a nossa capacidade de destruição: eles sobreviveram a nós. O que Winnicott aponta quando fala de "concern"e como "ensinar" às crianças a sentí-lo, é que os pais devem sobreviver a seus filhos. Diferente de negar a perda (observem que o pai, agustiado, na cena, diz logo: "ela - a formiguinha- vai sair já daí!), os pais devem continuar amando seus filhos mesmo quando estes estão "destruindo" a relação (como quando a criança diz "eu odeio você", "queria outra mãe"!), e devem sobreviver a esses ataques, sem deixar de dar o limite e de manter a realidade da perda para a criança. O meninho reage à negação do pai à destruição da formiguinha pelo irmão ("não vai não!!") com a implacável percepção, completamente real, de que a vida pode ser destruída, ou pior ainda, os laços podem ser destruídos a partir da morte. Em sua angústia, o pai cede à constante atitude que temos quando não queremos sentir, e não queremos que as crianças sintam, a dor da perda: queremos garantir a esperança custe o que custar. Mas isso é algo que não somos tão poderosos para fazer, a esperança é uma semente é gerada pela vida, a partir da experiência da vida.  O que a mãe procura fazer, no vídeo, é tentar compreender o que se passa, estando junto, e oferecendo colo, sem tentar resolver o problema. Fora do vídeo, o que torçamos para que ela faça, é que continue oferecendo sua compreensão e afeto, pois essa é a melhor maneira de ajudar uma pessoa, ainda mais uma pessoa pequena, a perceber uma coisa maravilhosa: que a perda, mesmo irremediável e terrivelmente dolorosa, pode manter o amor dentro de nós, nos ajudando a deixar nascer em nós uma espécie de semente. Assim, quando alguém se vai, podemos manter em nós o melhor daquele amor, para sempre.