domingo, 31 de julho de 2011

Por todas as "formiguinhas" de todos os tempos


A paixão e a criação do vínculos, os conflitos, a frustração e a perda dizem respeito a desafios da experiência de todos nós. A capacidade de preocupar-se, de sentir e respeitar a significância da vida é algo que aprendemos amando e sendo amados, desde o nascimento. Para Winnicott, essa capacidade é tratada a partir da palavra em inglês "concern", que guarda uma acepção paradoxal; pois tem o sentido ambíguo de "desvelo", "atenção"e ao mesmo tempo "cautela", "preocupação", "inquietação". "Concern" é o resultado de um desenvolvimento e não é algo dado, o que significa que nós aprendemos a amar e nossa sina é viver todas as vicissitudes desses amores, até o final de nossas vidas. Enquanto o sentimento de culpa diz respeito à moral, à capacidade de distinção e reconhecimento do certo/errado, o princípio de "concern" é o fundamento da ética por excelência. A capacidade de distinguir entre elementos vivos e não vivos e a acepção sagrada que o "ser" amado adquire para nós como um sentido único, nos torna hábeis para sentir que a vida, nossa e dos outros, vem de um elemento "comum" e precisa ser preservado. Nesse vídeo adorável vemos a dor de um meninho, dor que o acompanhará ainda muitas vezes, diante da destruição e da perda de algo vivo e, portanto, extremamente significante. Esse drama que é travado em diversas proporções na experiência de crianças e adultos, vai se transformando à medida que sentimos os impulsos da destruição e da agressividade, presentes em todos nós, e adquirimos o imperativo de recriar, ou "concertar" o mundo. Paradoxalmente, a destruição demonstra que nada pode ser construído da mesma maneira, o que nos gera a angústia da perda, perplexidade e, se temos êxito no desenvolvimento de sentir "concern", uma insistente esperança de que algo pode ser feito a respeito. 
O reconhecimento da perda irremediável, assim, pode ser pensada como um motor ainda maior para o sentimento de esperança e a mobilização da nossa criatividade.
No entanto, não podemos esquecer que, se a esperança advém da experiência, ou seja, se aprendemos amando e esperamos sempre amar, isso se dá graças ao fato de que, nossos primeiros e fundamentais amores, resistiram a toda a nossa capacidade de destruição: eles sobreviveram a nós. O que Winnicott aponta quando fala de "concern"e como "ensinar" às crianças a sentí-lo, é que os pais devem sobreviver a seus filhos. Diferente de negar a perda (observem que o pai, agustiado, na cena, diz logo: "ela - a formiguinha- vai sair já daí!), os pais devem continuar amando seus filhos mesmo quando estes estão "destruindo" a relação (como quando a criança diz "eu odeio você", "queria outra mãe"!), e devem sobreviver a esses ataques, sem deixar de dar o limite e de manter a realidade da perda para a criança. O meninho reage à negação do pai à destruição da formiguinha pelo irmão ("não vai não!!") com a implacável percepção, completamente real, de que a vida pode ser destruída, ou pior ainda, os laços podem ser destruídos a partir da morte. Em sua angústia, o pai cede à constante atitude que temos quando não queremos sentir, e não queremos que as crianças sintam, a dor da perda: queremos garantir a esperança custe o que custar. Mas isso é algo que não somos tão poderosos para fazer, a esperança é uma semente é gerada pela vida, a partir da experiência da vida.  O que a mãe procura fazer, no vídeo, é tentar compreender o que se passa, estando junto, e oferecendo colo, sem tentar resolver o problema. Fora do vídeo, o que torçamos para que ela faça, é que continue oferecendo sua compreensão e afeto, pois essa é a melhor maneira de ajudar uma pessoa, ainda mais uma pessoa pequena, a perceber uma coisa maravilhosa: que a perda, mesmo irremediável e terrivelmente dolorosa, pode manter o amor dentro de nós, nos ajudando a deixar nascer em nós uma espécie de semente. Assim, quando alguém se vai, podemos manter em nós o melhor daquele amor, para sempre. 

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