Querer (Pablo Neruda)
Não te quero senão porque te quero
E de querer-te a não querer-te chego
E de esperar-te quando não te espero
Passa meu coração do frio ao fogo.
Te quero só porque a ti te quero,
Te odeio sem fim, e odiando-te rogo,
E a medida de meu amor viageiro
É não ver-te e amar-te como um cego.
Talvez consumirá a luz de janeiro
Seu raio cruel, meu coração inteiro,
Roubando-me a chave do sossego.
Nesta história só eu morro
E morrerei de amor porque te quero,
Porque te quero, amor, a sangue e a fogo.
Lendo essa bela poesia do Neruda lembro de um pequeno bebê que vi hoje. A mãe deixou-o por alguns minutos, e entrou por trás de um biombo que ele não tinha idéia de que existia...o seu olhar suplicante e seu choro sentido pareciam exclamar "E morrei de amor porque te quero/ Porque te quero, amor, a sangue e fogo"!!!
Ah, o amor já começa assim, tão arrebatador, tão único, intenso, contraditório. Nessa história, apenas o bebê chora, apenas ele não compreende: "Como todos vocês podem estar tão tranquilos??? Cadê ela????"
Logo depois, a mãe chega. Como em um passo de mágica, o pequeno corpinho se estende todo para ela, as mãozinhas fazendo "vem". A cabecinha no ombro e aquela mãozinha deliciosa, que se deixa abandonar em suas costas...
Quanta entrega. O bebê é assim: confiança, entrega, vínculo. Em alguns momentos, surge impetuoso, dá-lhe um tapa no rosto e se assusta: opa, tem alguém aí!!"Não bata no rosto da mamãe", a mãe diz calmamente.
O bebê aos poucos vai descobrindo que aqueles bracinhos, pezinhos e tudo o mais, é dele. Não, no início, ele não sabe. E depois o pequeno bebê terá outro problema:" Tá, agora sei que tudo isso é meu, mas como é que controla mesmo???"
Nesse longo processo, o bebê mais que ama, ele precisa. Precisa que cuidemos dele, que adivinhemos seus sentimentos e desconfortos, que falemos com ele, e não por ele. E esse "querer" do bebê é arrebatador, é de uma intensidade tão grande que não podemos deixá-lo imerso na sua angústia por muito tempo. Precisamos dosar esse tempo, dosar até que ponto ele pode suportar (que é bem pouco).
Escrevo esse texto em homenagem a essa mãe muito querida que ouvi hoje. Essa mãe que estava espantada com esse amor, tão grande, tão intenso...e tão contraditório. Para ela que redescobriu hoje a força poderosa da palavra "confiança". .
E a todas as mães, para que lembrem que o bebê está crescendo, que tudo tem seu tempo, e que o tamanho do "limite" que o bebê precisa é do tamanho dele. Quanto mais ele cresce, mais essa necessidade também se desenvolve.
E como é difícil, e tão maravilhoso, vê-los crescer!
Um comentário:
Adorei o texto, nunca li alguo assim fiquei até amocionado, será a idade? Como que coisas tão cotidianas como um bebê chorando pode ter motivos tão desconhecidos? Parabéns pelo blog.
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